segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

EU SOU


 
De madrugada
Um rosto sinistro
Com voz embargada
Me segue atento
Vigia meus passos.
Em ritmo lento
Uma sombra alada
Saída do nada
Olhar sonolento
Flutua na praça.
Meus passos cadentes
Batendo no asfalto
Contidos, urgentes
Olhando pro alto.
No escuro da noite
Ao som do açoite
Sem pressa nem pena
Uma voz me condena.
E eu, escorrendo no ralo
Com olhar de regalo
Fugindo em silencio
Correndo de mim.
Um monstro sombrio
Sem forma nem brio
Com jeito, demente
E cara de gente.
Presa e predador
Caça e caçador
Criatura e criador.
Somos multidão.
Este sou eu.

João Drummond





domingo, 14 de fevereiro de 2010

ENQUANTO VOCÊ DORMIA...



Enquanto você dormia, projetei meus pensamentos,
Vencendo o espaço vazio,
Invadindo seu sono tranqüilo.

Enquanto você dormia, afrontei a solidão,
Enfrentei a escuridão
E sussurrei nos seus ouvidos.

Enquanto você dormia, conduzidas pelas brisas da noite,
Seguiram palavras doces.
Beijei seu coração.

Enquanto você dormia, meu corpo perdido na bruma,
De uma tormenta noturna.
Prisioneiro sem voz nem razão.

Enquanto você dormia, palavras mudas e sentimentos,
Esvaindo-se na noite escura,
Contra o sorriso cínico da lua.

Enquanto você dormia, a distancia era um detalhe,
Entre um corpo em tormento
E uma alma ao relento.

Enquanto você dormia, uma grande sombra alada,
Cortando a noite gelada,
Clamava pelo seu nome.

Quando rompia a aurora, e o sol despertava indolente,
Meu canto se emudecia
Enquanto você dormia...
E sonhava...



domingo, 7 de fevereiro de 2010

ENTRE AS VEREDAS




  Entre as veredas
A vida corre solta
À céu aberto,
Como um rio que
Corta as entranhas
Das Minas.

Meu cavalo em trote pesado,
Carregando velhas memórias,
Tralhas de um passado turvo,
Como são turvas as águas
De Teobaldo e Diadorim.

Pensamentos cortam
Os ares como balas de “Tatarana”
Numa busca angustiada
Pelo tal destino.

Triste destino
O de cavalgar sobre
Um cavalo alado,
Alazão de pêlo reluzente,
Pelas trilhas de fogo ateado,
Sob o olhar flamejante
De um sol algoz.

E eu um fantasma andarilho,
Com esta missão
Sem brilho, a de levar
Aos povos das veredas,
Que diante da insana
Saga humana, o sertão
Vai se acabar.

E no fim de tarde
Um frágil mugido
Da garganta de um
Boi sedento,
Reclama a chuva que não veio.

Mas veio o sol abrasador,
Veio a queimada,
Veio a lamina cortante

De um homem insensato,
Que a troco de lucro fácil
Destrói o sonho sertanejo.

Uma lua em cativeiro chora,
E se um dia o poeta proclamou
Em lamento, que o mar
Seria o sertão do amanhã,
E que o coração suspeitava
Que o sertão em mar podia
Se tornar,

Pelo trotar de meu cavalo alado
Entre as trilhas de um cerrado
Em fogo, este velho sertanejo
Errante, também em choroso canto,

Alerta que o sertão
Em deserto, enfim pode se transformar.







Féretro do Poeta

 Becos e ruas Esquinas e ruelas, Trevos e praças, Façam-se avenidas! Alarguem-se, Que ali vem a tristeza. Ermidas e i...