SÓ POESIA

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sábado, 25 de abril de 2015

Féretro do Poeta




 Becos e ruas
Esquinas e ruelas,
Trevos e praças,
Façam-se avenidas!

Alarguem-se,
Que ali vem a tristeza.

Ermidas e igrejas,
Capelas e oratórios,
Façam-se catedrais!

Calem seus cânticos,
Hinos e preces,
Que ali vem a tristeza.

Barracos e casebres,
Choupanas e casas,
Façam-se mansões!
Tranquem as janelas,
Cerrem as cortinas,

Arranquem as flores
Das jarras e jardins,
Que ali vem a tristeza.

Botecos e bares,
Baixo meretrício,
Ponham um tango
Na vitrola!

Façam um brinde,
E cantem em ação de graças
Que a tristeza se acabou,

Pois, claudicando,
Cambaleante e só,

Sem adeus,
Sem prece,
Sem sinos,
Sem amigos,

De terno e gravata,
Rumo ao cemitério,
O poeta, nada do nada,

Como viveu... passou.


Luiz Dias de Vasconcelos

quarta-feira, 18 de março de 2015

Um Canto de Liberdade





Um Canto de Liberdade

A brilhar na escuridão da consciência.
Luz tardia e ofuscada pela crença insana.
Pelas grades da prisão, uma seita profana,
De mestre e discípulos de pura demência.

Farol que nunca cede nem se apaga
Promessa urgente que o vento sopra
Um brilho ardente que o poeta afaga
Palavras e rimas que de noite obra.

Se ontem o Poeta em Espumas Flutuantes,
Clamava liberdade e "fechava os mares",
Seus gritos vagam como pássaros errantes,
Pelas favelas e campos de impolutos ares.

Mas para o poeta de sonho desperto
Que de noite rasga seu verso demente,
Seu canto suave se faz ouvir bem perto.
Canto de Liberdade, sob um céu clemente.


                    João Drummond

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O Mundo do Poeta




Ao poeta restaram as palavras...
Poéticas, proféticas, amorosas, raivosas,
Tristonhas, bisonhas, intrusas, reclusas
Palavras de euforia.
Palavras de alforria.
Palavras que libertam, acobertam,
Ofendem, matam, desmatam.
Palavras que constroem e destroem.
Que correm com os ventos e os eventos.
Palavras que param estagnadas,
Paralisadas, sussurradas.
Palavras que desafiam, fiam.
Palavras que anoitecem e amanhecem,
Com o mesmo tom indignado,
Com a mesma cara lavada.
Palavras como véu transparente
Ou como mortalha deprimente.
Palavras faladas com louvor
Ou gritadas com horror.
Benditas, malditas, ditas.
Palavras pensadas, repensadas.
Palavras inconseqüentes, delinqüentes.
Palavras molhadas, geladas.
Pueris, sutis, profundas, fecundas
Resolutas, impolutas,
Indecisas, incisivas,
Pertinentes, insolentes.
Arrogantes, intrigantes,
Destrutivas, emotivas,
Emproadas, emboladas,
Pacifistas, belicistas.
Pensando bem, ao Poeta
Restaram todas as palavras
Não lhe faltou nada... nada


João Drummond

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O Ultimo Poema



Caminhei pelas vilas e cidades
Entre virtudes e maldades
Lutei em todas as rinhas
Batalhas nobres e mesquinhas

Vi pelas frestas das janelas
Matronas e donzelas
De expressões inocentes
E olhares indecentes

Gritei a plenos pulmões
Poemas e palavrões
Viajei pelos sete mares
Respirei todos os ares

Tomei remédios e venenos
Pulei muros e abismos
Ganhei uma grana preta
Perdi tudo na roleta.

Plantei flores, frutos e espinhos
Gerei filhos legítimos e bastardos
De joelhos em lamentos mesquinhos
Pedi perdão pelos meus pecados.

Restou-me uma ultima empreita
A hora do meu melhor recado
Deixo aqui neste poema
O meu derradeiro legado

João Drummond